Mostrando postagens com marcador Textos de Estudo: Filosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Textos de Estudo: Filosofia. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de outubro de 2010

Filosofia - Professor Mário Márcio.

SORTE NÃO, COMPETÊNCIA.

Antônio Roberto
     Quando acreditamos em algo falso, a coisa continua falsa, mas as consequências para nossas vidas são verdadeiras. À medida que alguém acredita na sorte e no azar, por exemplo, o resultado é a acomodação e a passividade. Se nosso destino já está traçado, não precisamos nos esforçar, nem enxergar as oportunidades, nem aprender onde erramos pelo fato de nada dar certo, nem refazer nossas escolhas. O que chamamos de sorte é apenas aproveitar na hora certa, as oportunidades que a vida nos oferece. Azar é o contrário disso. Há uma parábola muito antiga e muito bonita a esse respeito, de um autor desconhecido.
     Havia um homem que, como a maioria das pessoas, considerava-se absolutamente sem sorte. Tudo o que ele fazia dava errado. Quando ia plantar suas sementes, os passarinhos as comiam ou a chuva forte as levava e, quando isso não ocorria, a seca acabava com suas plantações. Ele reclamava o tempo todo. Suas queixas contínuas faziam as pessoas se afastarem dele. Todos o consideravam um chato e, com isso, ele vivia muito só. Reforçando sua crença no azar. E ele não conseguia entender a razão de tanta falta de sorte.
     Um dia, resolveu tomar uma atitude e ir procurar um grande mestre que vivia em uma floresta, a muitos quilômetros de sua cidade. Depois de andar muitos dias, o homem logo ao entrar na floresta se deparou com um lobo muito magro, sem pelos, que lhe falou: - Moço me ajude. Não sei o que está havendo comigo. Estou sem forças, não consigo ir ao rio beber água. Dessa forma vou morrer. – Não posso ajuda-lo, disse o homem, estou indo atrás de um mestre para me responder sobre o meu azar na vida. – Então, pergunte ao mestre o que está ocorrendo comigo, falou o lobo. E o homem continuou seu caminho.
     Já no meio da floresta, ao tropeçar numa raiz, viu uma árvore quase sem folhas, com os galhos retorcidos e a casca soltando do tronco. Ao ver o espanto do homem, a árvore disse: - Não sei o que está acontecendo comigo. Estou muito doente. Há seis meses minhas folhas estão caindo. Depois da conversa, ela implorou ao homem para pedir ao mestre uma solução para seus problemas. Ele continuou sua jornada e, depois de alguns dias andando, chegou a um vale cheio de flores de várias cores e perfumes. Ele nem reparou nisso e chegou a uma casa. Diante dela estava uma moça lindíssima, que, depois de uma longa conversa, também lhe pediu um favor: - Pergunte ao mestre por que sinto tanto vazio no peito, sem nenhum motivo. O que devo fazer? Mais alguns dias de caminhada... E o homem encontrou o mestre sábio.
     O homem contou sua triste vida e o mestre lhe disse: - Sua sorte está no mundo, nas pessoas, nas coisas, nas circunstâncias. Quando o homem ia saindo, o mestre lhe perguntou: - Você está esquecendo-se de alguma coisa? Não quer resposta para uma árvore, um lobo e uma jovem?
     O homem voltou, ouviu as respostas e saiu em disparada. Na volta, encontrou-se com a moça: - O mestre disse que minha sorte está no mundo e o que você sente é solidão; se você encontrar um companheiro será muito feliz. A moça, então, lhe perguntou: - Você quer ser esse companheiro? – Não, respondeu o homem, não foi para ficar aqui que fiz essa viagem. Saiu correndo e encontrou com a árvore, que lhe cobrou a resposta do mestre: - O mestre disse que você está morrendo porque no meio de suas raízes há uma caixa de ferro cheia de moedas de ouro. Se você cavar e tirar esse tesouro você será saudável novamente.
     - Faça isso para mim, você pode ficar com o tesouro. – O mestre falou que minha sorte está no mundo, não posso perder tempo. Adeus. E saiu correndo de volta para casa. Atravessando o resto da floresta encontrou o lobo, que estava mais magro ainda e mais fraco.
     - O mestre mandou lhe dizer que você não está doente. Você tem fome e, como não tem forças para caçar, vai morrer aí mesmo, a não ser que algum estúpido passe por aqui e você consiga comê-lo. O lobo reunindo o resto de suas forças deu um pulo e comeu o homem “sem sorte”.
     Acreditar em sorte ou azar é uma forma de cegueira. As oportunidades e as ameaças estão à nossa volta, todo tempo. Enquanto procuramos um culpado (o destino) para nossa vida, as oportunidades passam. Nada fazemos. Não mudamos com nossos erros e ficamos à mercê dos infortúnios. ROBERTO, Antônio. Sorte não, competência. Estado de Minas. Belo Horizonte, 21 de fevereiro de 2010. Caderno BEMVIVER, p. 2.
     Com base no texto, procure responder conforme se pede:

1 – Por que “acreditar em sorte ou azar é uma forma de cegueira”?

2 – Que se deve entender por “sorte”, segundo o autor?

3 – O homem da fábula era uma pessoa azarenta? Justifique sua resposta com partes do texto.

4 – E você é sortudo, ou um azarão? Toda sorte tem, quem acredita nela... É verdade? Escreva um testículo dando seu parecer.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Atividade Avaliada de Filosofia




DOS DESENCONTROS
Ana Maria Machado

            A flexibilidade que vemos hoje nos relacionamentos, esse leque de opções de modos de se relacionar, tem como contrapartida – talvez por uma pressão social proveniente do capitalismo e do individualismo – uma tendência à insatisfação. Em outras palavras, existe uma premência[1] de partir para a próxima relação. Então, apesar de tantas possibilidades, por que muitas vezes as pessoas não conseguem resolver certas questões dentro da relação em que já estão? Se dizemos que “família é tudo igual”, “mãe é tudo igual”, com o próximo parceiro ou companheiro as dificuldades não serão as mesmas? De onde surge a premência da troca? Creio que esse desencontro, esse equívoco deriva da expectativa, ilusória, de que o outro vem pronto para mim. Uma noção característica de nossa sociedade de consumo. Ou eu quero e me serve, ou vou à loja e troco. Quer dizer, por vezes perde-se a noção de que o relacionamento é uma construção, um contrato renovável em que as regras se alteram durante sua vigência, altera-se o tipo de relação que se quer etc. É preciso conversar franca e abertamente; acho que falta falar mais, dialogar. O amor nasce da imaginação expressa em palavras. Quando não se conversa sobre isso ou quando se ridiculariza o assunto, dizendo que discutir a relação é coisa de mulher, aí acabou, sai cada um para um lado, fazer outra coisa. Não houve um investimento.
            Acho que a busca permanente de alguns decorre da suposição de que o outro está pronto e que esse outro é sua “metade da laranja”, é sua “alma gêmea” ou não é nada – é só trocar, devolve-se este para pegar um no seu número ou em outra cor ou modelo. Mas as coisas não são assim. Os relacionamentos são dinâmicos, alteram-se, são repactuados, e é essa compreensão que permite seu crescimento e, eventualmente, sua manutenção.
            Por outro lado, quantas e quantas vezes não se vêem gente que teve uma bela relação durante dez, quinze anos, mas que, num determinado momento, percebe que não dá mais, sai para outra, ou foram às circunstâncias que mudaram, e as pessoas acham que o casamento foi um fracasso. Não foi, durou aquele tempo. As pessoas mudaram no decorrer da vida. Nós estamos mais longevos, estamos vivendo experiências que não são apreendidas da mesma maneira pelos parceiros, por mais que sejam íntimos, por mais que se acompanhem. Quando eles conversam muito, é mais fácil seguir juntos, mas quando cada um de nós leva sua vida num compartimento estanque (e isso não tem nada a ver com morar junto ou não; não é uma questão de tipo de família), enfim, quando não se dialoga sobre o que importa, e não se compartilha o entusiasmo por uma coisa, uma dúvida sobre outra, um sofrimento, uma aflição, então aí vai aumentando o distanciamento. Chega um dia em que eles concluem que já não têm tanto em comum. Mas isso não quer dizer que tudo que ficou para trás tenha sido um fiasco. Quis falar desse cenário porque muitas vezes existe uma cobrança da pessoa consigo mesma, uma tendência de se culpar. (MACHADO, Ana Maria & SCLIAR, Moacyr. Amor em texto, amor em contexto: um diálogo entre escritores. Campinas, São Paulo : Papirus 7 Mares, 2009. (Coleção Papirus Debates). PP. 46-48).
                A PARTIR DA LEITURA DO TEXTO ACIMA, PROCURE RESPONDER CONFORME SE PEDE.
1 – Segundo a autora, de onde surge a premência (a urgência) da troca [de parceiros]?
2 – Discutir a relação é coisa de mulher? Justifique sua resposta com partes do texto.
3 – As coisas são assim... O outro é nossa “metade da laranja”, ou não é nada disso? Justifique sua resposta.
4 – Um casamento que durou dez, quinze, vinte anos e depois termina, foi um fracasso?
5 – Para a autora, o que é fundamental para se sustentar um relacionamento duradouro? Você concorda? Justifique-se


[1] Premência: urgência.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Filosofia: "O sentido da vida"

O SENTIDO DA VIDA

Antônio Roberto

         Inúmeras pessoas se queixam da falta de sentido na vida. Essa reclamação só ocorre em momentos de sofrimento, desilusão, depressão e estresse. Nunca nos perguntamos pelo sentido da vida quando estamos felizes, usufruindo algum prazer, em estado de graça. A vida, no entanto, não tem, em si mesma, nenhum sentido. É nascer, viver e morrer. Essa afirmação, no entanto, não guarda nenhum pessimismo ou frustração. Ao mesmo tempo, é justamente pelo fato de a vida não ter nenhum sentido que nós podemos criar um sentido para a nossa vida – escrever os próprios sonhos, criar os nossos caminhos, construir uma existência própria.
         Duas condições são básicas para um sentido à vida. Primeiramente não aceitar a pressão social para um sentido padronizado da vida. Cada um de nós é um indivíduo e, por isso, singular. Cada um tem sua particularidade, gostos, opções... E a construção vital deve obedecer a essa singularidade. A sociedade tende à padronização e estabelece regras que nos farão felizes. A autonomia humana, ao contrário, estabelece que a felicidade é pessoal, intransferível e inalienável. A felicidade ou o sentido da vida é personalizado. Quando muito, posso apenas partilhar esse sentido com o sentido da vida de outras pessoas.
         A segunda condição é saber que não adianta procurar fora de nós mesmos o rumo da existência. Não podemos pegar carona na vida de outras pessoas. Os pais, cujo sentido existencial está nos filhos, o marido ou a mulher, cuja graça de viver depende totalmente do outro, as pessoas que depositam todo o valor da vida no sucesso social, no dinheiro, no poder, no domínio e controle de outrem estão fadados, mais cedo ou mais tarde, a um vazio e à perda do sentido da vida.
         O amar a si próprio e a aceitação de si mesmo nos fazem ter sintonia com nosso coração, intuição e desejos, que determinam nosso rumo na vida. Como a vida só existe no momento presente, o seu sentido é também sempre agora. O contrato feito com nossos sentimentos e com nosso corpo é o alicerce seguro para que nossa cabeça planeje a entrada. Na mesma proporção do auto-amor, deve ser considerado o amor às outras pessoas. É impossível aprender, significativamente, o amor sem a partilha, sem soltar as amarras do coração e deixar que nossa luz envolva quem se aproximar.
         A inteireza, a totalidade, o envolvimento com o outro são sinais de rumo, de significado. Dizia o Pequeno Príncipe: “Só se vê bem com o coração”. A lógica e a racionalidade, desvinculadas da emoção, nos conduzem a um sentido da vida periférico, sem sustentação...
         A vida é emocional. Nós somos aquilo que sentimos. As emoções, por outro lado, é uma bússola. Elas nos dizem se estamos no rumo errado. As emoções dolorosas, chamadas de negativas, nos convidam a uma mudança de rota. As positivas nos mostram o caminho certo. Um outro aspecto relevante do sentido da vida é sua relação com a aceitação ou não da realidade.
         Certa vez, um jovem deprimido, de 24 anos, me apresentava a seguinte questão:
-         “Que sentido tem a vida? Se um dia vou morrer, pra que estudar?”.
Nós não escolhemos nascer, não escolhemos morrer. A única escolha que nos sobrou foi como viver. Se aceitarmos a realidade tal qual ela é, com seus altos e baixos, seus verões e invernos, nossa vida terá a totalidade dos opostos e sentiremos um imenso prazer no fato de estarmos vivos. Se, ao contrário, de maneira onipotente, queremos uma vida idealizada e perfeita, sem erros, sem perdas e sem dor, nossa existência se torna um recuo, uma fuga, um medo de viver.
O grande problema humano não é a perda, a doença ou a morte, mas o medo dessas coisas. Aceitar a fragilidade humana e não resistir à realidade nos faz participantes da melhoria do mundo e protagonistas ativos dessa brincadeira, que é viver. Há coisas que estão sob nosso controle e outras que não estão. A felicidade, o sentido dado à nossa vida, vem da nossa disponibilidade. Viver, como diz Guimarães Rosa, é muito perigoso. Um sim aos riscos, ao desconhecido e ao inesperado nos faz participantes esperançosos do mistério da realidade. A vida é um mistério para ser vivido e não um enigma a ser decifrado. Enquanto nossa cabeça tentar explicar o mundo, de onde viemos e para onde vamos, perdemos o sol, as cores, o afeto, o gosto, o tato, os sons oferecidos ao nosso corpo. A vida é apenas para ser saboreada.” [Estado de Minas – Domingo, 4 de janeiro de 2004, Caderno Bem Viver, página 2.]

COM BASE NA LEITURA DO TEXTO ACIMA, RESPONDA:
1. A vida, segundo Antônio Roberto, “não tem, em si mesma, nenhum sentido...” Por outro lado, o autor fala, também, que essa afirmação “não guarda nenhum pessimismo ou frustração...”, por quê?
2. “Duas condições são básicas para um sentido à vida”, quais são elas, segundo o autor?
3. “... amar a si próprio e a aceitação de si mesmo nos fazem ter sintonia com nosso coração...”, por quê? Justifique sua resposta com partes do texto.
4. “Só se vê bem com o coração”, por quê?
5. “A vida é emocional”, o que isso significa?
6. “O grande problema humano não é a perda, a doença ou a morte, mas o medo dessas coisas”, por quê?






Filosofia: "Mulheres: um tipo de escravidão?"

Mulheres: um tipo de escravidão?
 Mário Schmidt
            “Desde os tempos da colonização, a sociedade tinha uma organização em que os homens possuíam mais poder e mais prestígio que as mulheres. Os homens tinham mais estudo, ocupavam os cargos mais importantes, tomavam todas as decisões políticas e econômicas. As leis e os costumes reforçavam o domínio masculino. As crianças eram educadas para aceitar a superioridade dos homens como algo natural.
            As relações [entre os homens e as mulheres] podiam até ser violentas. Mulheres eram espancadas, estupradas, assassinadas. No casamento, tinham de se manter submissas [a seus pais e a seus maridos e/ou companheiros].
            As mulheres das classes média e alta nunca andavam sozinhas na rua. Deviam estar sempre acompanhadas por um parente ou uma escrava, imagine a dificuldade que tinham para namorar! Os rapazes e as moças trocavam olhares discretos na rua, no teatro, no salão de baile. Então, o rapaz visitava o pai da moça e a pedia em noivado. Se o pai e a escolhida concordassem, eles podiam se encontrar. Davam-se as mãos e viam-se sempre na presença de um adulto. Claro que sempre achavam uma oportunidade para, escondidos, dar um beijo e trocar um carinho mais forte. Mas a moça se casava virgem.
            As mocinhas eram educadas para casar e obedecer ao marido. Nas classes média e alta, aprendiam pouco além de ler e escrever. O que valia era saber costurar, tocar piano, agradar ao futuro esposo. Nas classes mais baixas, elas estudavam menos ainda. O analfabetismo era maior entre as mulheres [pobres]. Tinham de trabalhar (como costureiras, lavadeiras, criadas), cuidar da família e, do mesmo modo, aceitar as ordens do marido.
            Algumas mulheres das classes média e alta buscaram a emancipação nos estudos. Formaram-se as primeiras advogadas e médicas brasileiras. Mas as leis proibiam sua atuação profissional!” (SCHMIDT, Mario. Nova História Crítica. São Paulo : Nova Geração, 1999. Vol. 3, pág. 292)
           
A partir do que é apresentado pelo autor do texto acima, procure responder:
1.0   Desde os tempos da colonização, os homens possuíam mais poder e mais prestígio que as mulheres, por quê? Justifique sua resposta citando partes do texto.
2.0   De que forma, segundo o autor, as crianças [sobretudo as meninas] eram educadas?
3.0   As mulheres eram e têm sido até hoje vítimas de violência, por quê? Você acha isso natural? Justifique sua resposta.
4.0   Os homens são “superiores” às mulheres? Justifique sua resposta.
5.0   Meninos e meninas estudavam em escolas separadas. As meninas recebiam menos instrução que os meninos. Que habilidades as mulheres deviam desenvolver, por quê?
6.0   Trabalhando em escolas públicas (Municipal e Estadual), tenho percebido que alguns adolescentes (bem poucos) se levam mais a sério nos estudos (e na vida) que outros A seu ver, por que isso acontece? Algumas pessoas são menos inteligentes (e menos capazes) que outras? Ou será que pela força (na base da “porrada”, falta de educação, desrespeito às regras morais e sociais) os indivíduos serão absorvidos pelo mercado de trabalho? Ou essa história de trabalhar, constituir uma família, ser competente naquilo que escolheu fazer na vida, ser uma pessoa de Fé, não é mais importante? Ou ainda: ser irresponsável, não assumir a própria vida, viver escorado em leis [como o ECA, por exemplo, que reconhece direitos e ignora os deveres dos adolescentes], caracteriza a nova geração?
Redija um texto [de 15 a 25 linhas] discutindo essas questões.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Filosofia: A Senhora Fortuna

A senhora fortuna
Pablo Capistrano
            (...) Na antiga Roma imperial já se tinha consciência de que tudo aquilo que a vida nos dá com uma das mãos pode nos retirar com a outra.
            Curiosamente, essa idéia era representada na figura de uma deusa, cuja imagem era comumente encontrada em moedas. A Fortuna surgiu como uma divindade da fertilidade primogênita de Júpiter, deusa do destino que carregava numa das mãos uma cornucópia (uma espécie de chifre mágico) e na outra mão, um leme. De dentro da cornucópia dava aos mortais bênçãos diversas: dinheiro, amor, fama e sucesso. Com o leme, mudava, subitamente, o destino dos mortais.
            Pense num acidente de avião. Pense na quantidade de pessoas que tiveram bruscamente o destino de suas vidas modificado por esse desastre. Pense nas pessoas que, por um atraso de minutos ou por uma circunstância de pequenos desencontros, escaparam da morte [nesse acidente].
            Pensar sobre isso incomoda porque nos lança diante da evidência de nossa própria fragilidade. Somos muito pequenos diante das circunstâncias e o mundo, com seus ritmos e com seu amontoado de acasos, pode, num segundo, nos oferecer muito ou nos tirar tudo.
            A consciência dessa instabilidade é o ponto de partida da filosofia estóica. Originária na Grécia e depois trazida para o centro do Império Romano por Cícero, o estoicismo acabou por se tornar uma das correntes mais influentes da filosofia romana. (...) o estoicismo era exercido nos portões das cidades.
            Zonas de transição das cidades antigas, os portões (stoá em grego) eram espaços de intercâmbio, nos quais os estrangeiros e cidadãos comercializavam. O estoicismo cresceu, assim, entre os cidadãos de um império imenso, num mundo sem direitos ou garantias individuais, cercado de grande instabilidade e fragmentação.
            Entre os grandes pensadores romanos desse período encontramos Lucio Aneu Sêneca. Nascido em 3 a.C., filho de uma abastada família espanhola, Sêneca se destacou no mundo político e flertou diretamente com o poder. Chegou a ser tutor de Nero e juntou uma grande fortuna, cobrando impostos dos moradores da Bretanha ocupada.
            (...) Mas nem o poder político, nem a riqueza, nem o prestígio intelectual, nem todas as glórias e prerrogativas do Império impediram Sêneca de ter um fim de vida trágico. Vítima de intrigas palacianas, o filósofo acabou sucumbindo à loucura de Nero, e foi condenado a escolher entre o suicídio e a empalação. Diante dessas circunstâncias, acabou por seguir o exemplo de Sócrates e matou-se.
            Essa é a nossa gangorra.
            Um dia podemos estar bem, saudáveis, felizes: no outro, ser vítimas do leme da Fortuna. Um dos temas recorrentes do estoicismo era justamente esse “Como enfrentar a fragilidade do homem diante do destino?” Para os estóicos, é preciso aprender a perceber até onde nossos esforços podem interferir na ordem das coisas.
            O que diferencia o homem sábio do ignorante não é o volume de conhecimentos, mas a percepção da hora certa de abdicar da própria ação e aceitar o destino. Insistir em algo inútil é sinal de estupidez.
            A revolta contra aquilo que não se pode mudar não é uma atitude inteligente. Se eu não domino a totalidade das variáveis que determinam a minha situação, não faz sentido me revoltar contra aquilo que não posso alterar. O grande ensinamento estóico é o de que ninguém deve ter confiança excessiva naquilo que a vida oferece, porque o mesmo conjunto de fatores que o abençoa também pode derrubá-lo. Os bens da vida são transitórios e a única coisa sobre a qual nós podemos ter algum controle é o nosso próprio caráter.
            A serenidade diante do que não se pode mudar é, na visão de Sêneca, nossa grande resposta para a Fortuna. (...) Perder o equilíbrio é completamente inútil. Por isso carrego sempre uma moeda comigo. Para não esquecer que, nesse mundo, a probabilidade de se ganhar é a mesma de se perder e que nem a mais azulada tristeza nem a mais ensurdecedora alegria duram para sempre. (CAPISTRANO, Pablo. Simples filosofia: a história da filosofia em 47 crônicas de jornal. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. Pp. 79-82.)
                COM BASE NO TEXTO ACIMA, PROCURE RESPONDER CONFORME SE PEDE.
1. Segundo o autor, “somos muito pequenos diante das circunstâncias”, por quê?
2. Qual é o ponto de partida da filosofia estóica? E por que o estoicismo era exercido nos portões das cidades?
3. Fazendo referência ao trágico fim da vida de Sêneca o autor desabafa: “Essa é a nossa gangorra.” O que ele quis dizer com isso?
4. O que diferencia o homem sábio do ignorante?
5. Qual é o grande ensinamento da filosofia estóica?



            

Filosofia: "A medicina da alma"

A medicina da alma
Pablo Capistrano
         
            No Mito de Sísifo, o escritor francês Albert Camus aponta: “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma questão fundamental da filosofia”.
            Estar vivo é experimentar um pequeno intervalo de tempo entre a infância e a velhice. Uma boa parte das pessoas passa esse curto intervalo de tempo sem saber “o porquê”. Essas pessoas apenas existem como as pedras e as plantas. Fazem parte da paisagem. São ligadas à terra que as pariu com vínculos tão poderosos que não sentem toda a dimensão da própria vida, nem toda a fúria e a ansiedade que esse intervalo de tempo apresenta. Algumas pessoas fazem a pergunta fundamental: “Por quê?” O que significa: Apostar todo dia de manhã que a vida vale a pena?
            Epicuro entendia que uma das funções fundamentais da filosofia era a cura da doença da alma. Do mesmo modo que a medicina (...) curava o corpo, a filosofia contribuía para o desenvolvimento de um estado de pacificação do espírito.
            A prática da filosofia e da medicina levaria o sábio mais próximo de um estado de ataraxia e de aponia. Falta de perturbação na alma e falta de dor no corpo. Mas o intervalo de tempo entre a infância e a velhice que os humanos costumam chamar de “vida” é cheio de dor e sofrimento. Boa parte do tempo que você passa na terra tem a ver com a luta para evitar a dor que é inerente à nossa passagem nesse mundo.
            Você trabalha para ganhar dinheiro e ganha dinheiro para não morrer de fome, frio ou de doença. Você se esforça para ficar bonito para não sofrer com a solidão e luta para manter o vigor físico depois de certa idade para não perder a autonomia. Essa é a nossa comédia. Viver em constante luta contra o tempo, jogando xadrez com a morte, na certeza de que cada jogada é apenas um adiamento do xeque-mate.
            Epicuro buscou responder à questão: “Como é possível ser feliz em circunstâncias tão adversas?”
            A primeira idéia é a de que a felicidade não é um estado de espírito, mas um momento decorrente de uma prática, de um conjunto de hábitos. Eu nunca poderei “ser” feliz. A felicidade não é um estado de “ser”. Eu posso estar feliz quando eu estou sereno, e antes de qualquer coisa estar sereno é estar saudável.
            Estar feliz é estar envolto num momento que decorre de um longo esforço de superação dos próprios medos e de gerenciamento dos próprios prazeres. Para Epicuro, nossa perturbação mental derivaria de quatro fontes fundamentais: medo da morte, medo do castigo divino, medo da dor e do sofrimento e, finalmente, a dificuldade em gerenciar o próprio desejo.
            Todas essas fontes da doença da alma criam instabilidade, fraturam o equilíbrio do espírito e podem levar, facilmente, qualquer homem a um estado de desespero. A ciência moderna nos deu inúmeras pílulas mágicas que podem alterar o funcionamento de nosso cérebro e produzir estados de serenidade química. Isso talvez seja útil em estados patológicos avançados da doença da alma que podem nos arrastar para o suicídio.
            Mas não são suficientes. A resposta à pergunta fundamental de Camus não se encontra numa farmácia. Esta nos ajudar a recuperar a quantidade mínima de ausência de dor no corpo e de falta de perturbação na alma para que não sucumbamos ao desconforto de estarmos vivos e apressemos aquilo que sempre chega... Mas ela não basta porque não está embutido em nenhuma bula de remédio o conjunto de práticas e de atitudes mentais que me levam a recuperar minha serenidade e, com ela, minha saúde.
            Epicuro nos ensinou, na antiguidade profunda de uma Grécia em decadência, um modo de educar a nossa mente para que as idéias que reforçam o pânico não nos destruam.
            Diante do suicídio do poeta russo Serguei Iessiénin, Maiakovski, outro suicida ilustre, ofereceu uma resposta epicurista para o dilema de Camus: Para o júbilo // o planeta está imaturo // é preciso arrancar a alegria ao futuro. // Nesta vida / morrer não é difícil.// O difícil é a vida e seu ofício.
            COM BASE NA LEITURA DO TEXTO ACIMA, PROCURE RESPONDER CONFORME SE PEDE.
1.0   Para Camus, qual é o problema filosófico verdadeiramente sério?
2.0   Para o autor do texto, o que o suicídio representa?
3.0   O que significa “estar vivo”, segundo o autor?
4.0   Algumas pessoas fazem parte da paisagem. O que isso significa?
5.0   Para Epicuro qual é uma das funções fundamentais da filosofia?
6.0   Como é possível ser feliz em circunstâncias tão adversas?
7.0   Para Epicuro, nossa perturbação mental derivaria de quatro fontes fundamentais, quais são elas?
8.0   Faça um pequeno texto, de 15 a 30 linhas, dando sua opinião a respeito do suicídio. Ou escreva um texto explicando: o que significa apostar todo dia de manhã que a vida vale a pena?

Filosofia: "A invenção da ética"

“A invenção da ética”
Pablo Capistrano
                [...] o Sócrates grego era mestre em fazer surgir idéias, como as crianças que sua mãe, parteira de profissão, ajudava a vir ao mundo. Sócrates se tornou uma espécie de “santo da filosofia” através da descrição que Platão fez de sua condenação e de sua execução. Nesse sentido, comparações entre Sócrates e Cristo são inevitáveis.
                Os dois são personagens trágicos. Ou seja, tanto os evangelhos canônicos quanto os diálogos de Platão que falam sobre a morte de Sócrates utilizam a estrutura das tragédias gregas. A morte de alguém muito superior a todos nós. A via-crúcis de Jesus, assim como os momentos finais de Sócrates na prisão, à espera da cicuta que o matará, tem grandes semelhanças com a forma básica da tragédia descrita por Aristóteles e causa o mesmo impacto psicológico.
                O happy end da ressurreição e o discurso presente no Fédon (diálogo que descreve os momentos finais de Sócrates) aliviam um pouco o peso trágico dessas duas histórias. Sócrates morre sereno. Ele demonstra que todo seu esforço filosófico foi o de se preparar para a morte e de construir um trabalho espiritual e mental que o deixasse firme, pleno e tranqüilo diante do derradeiro instante. Sua superação da fragilidade dessa vida se encontra na investigação sobre a própria vida. 
Sócrates pensou sobre o homem. Ele inverteu o curso da pergunta dos primeiros filósofos.
Se antes a grande questão da filosofia era “O que é isso que constitui a natureza? Depois de Sócrates a pergunta passou a ser “O que é isso que constitui o homem?”
                Sócrates inventa a ética porque propõe uma investigação sistemática acerca da Justiça, do Bem, da Linguagem, da Virtude. Antes de saber como a natureza funciona, o homem deve pensar sobre o que realmente é importante nessa vida. Antes de mergulhar nos limites do universo, o homem deve saber dos seus próprios limites. “Conhece a ti mesmo.”
                A percepção dessa frase induz Sócrates a uma intuição básica. O papel da filosofia é preparar o homem para a morte, e para que o homem possa se preparar bem para a morte é necessário que ele conheça a si mesmo, que reconheça seus limites, sua própria ignorância e que pratique um tipo particular de esporte: a maiêutica [o parto das idéias].
                Essa é a arte de conseguir, por meio de perguntas e respostas, fazer surgir a verdade que habita cada um, mas que, por arrogância e presunção, não conseguimos escutar. Calamo-nos para essa voz interior. Fechamos os olhos para não enxergar nossa própria condição. Esquecemos nosso ser, trancamos a janela para a luz de nossa casa não iluminar a rua. Mergulhamos na banalidade do mundo e nos surpreendemos quando a morte chega e diz: “Cartão vermelho! Fim de jogo pra você!”
                A virada ética de Sócrates começa quando surge a idéia de que não importa quão grande forem os mistérios do mundo, mais importante é encarar os mistérios de nossa curta e limitada existência. (CAPISTRANO, Pablo. Simples filosofia: a história da filosofia em 47 crônicas de jornal. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. Pp. 49-51.)
1. O discurso presente no Fédon (diálogo que descreve os momentos finais de Sócrates) alivia um pouco o peso trágico de sua morte, por quê? Justifique sua resposta com partes do texto.
2. Sócrates inverteu o curso da pergunta dos primeiros filósofos. Que inversão foi essa?
3. Por que, segundo o autor, Sócrates inventa a ética?
4. “Conhece a ti mesmo.” A percepção dessa frase induz Sócrates a uma intuição básica. Qual?
5. Para Sócrates o que é mais importante na vida? E para você, o que é mais importante?

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Filosofia: A arte de cultivar jardins.

A arte de cultivar jardins

Pablo Capistrano
Numa madrugada dessas, acordei sobressaltado: “Meu celular! Meu celular!”
Não sei se você já passou por isso, mas acredito que um dos distúrbios mais significativos de nossa era, junto com o diabetes, a pressão alta e a síndrome do pânico seja o medo de perder o próprio celular.
Hoje, eu sou um dependente digital. Um viciado eletrônico. E acordo de madrugada com medo de ter deixado meu celular em cima da mesa, na sala de aula. Hoje, só Epicuro pode me salvar.
Nascido em Atenas no ano de 341 a.C., Epicuro partiu para Samos, na costa da Turquia, ainda criança, retornando à terra natal em 321 a.C. Muito provavelmente foi Epicuro o filósofo mais difamado da história ocidental.
Objeto de distorção por parte da Igreja cristã romana, seu pensamento se transformou numa espécie de febre hedonista, uma busca desenfreada pelos prazeres da carne e do corpo, a ponto de ter seu nome vinculado a uma famosa revista de futilidades da Inglaterra, Epicurean Life (especializada em publicar artigos sobre hotéis, iates e restaurantes). Mas Epicuro não se parecia nada com aquilo que dizem que ele foi.
Vivendo num período de decadência da cidade de Atenas, a geração de Epicuro amargou dissabores da desagregação política e econômica da Grécia clássica. Sem expectativas reais de atuação política, Epicuro preferiu se retirar da vida pública e fundou sua própria escola filosófica, longe dos muros da cidade e do burburinho da praça do mercado.
“O Jardim” era uma espécie de “comunidade alternativa”. Lá se buscava a liberdade econômica através do cultivo da terra, a amizade dos vínculos de afeto e do diálogo e a reflexão genuína sobre o que o homem deve cultivar para encontrar um estado de felicidade em sua vida. A busca pela tranqüilidade da alma e pela saúde do corpo era o grande objetivo da escola de Epicuro. Mas, para se chegar a essa serenidade, era necessário enfrentar o desejo.
Filho da ausência, o desejo é um tipo de prazer diante daquilo que não se tem. Desejar é sofrer diante da ausência. Quando eu quero aquilo que não tenho sou levado a um estado de ansiedade e intranqüilidade que me tira do eixo.
Por isso é tão importante para o consumo num grande shopping que o desejo das pessoas seja ativado mediante um conjunto de mecanismos artificiais de produção de necessidades. Diante da ansiedade do desejo, seu comportamento se transforma e você usa mais, fala mais, olha mais, bebe mais, corre mais, come mais, gasta mais e pensa menos.
Sua vida se torna um ciclo sem fim de desejo, ansiedade e consumo, em busca da blusa perfeita, do computador mais moderno e do namorado ou namorada mais fashion. Diante desse estado de coisas você se prende a um mundo de necessidades forjadas e perde o sono à noite pensando que perdeu seu celular e que, por isso, sua vida não faz sentido.
Diante desse quadro patológico coletivo, Epicuro propõe um novo tipo de prazer, oposto ao desejo. O prazer na saciedade é o prazer na presença daquilo que se necessita e não naquilo que se deseja. Para Epicuro, feliz é o homem que busca os prazeres naturais e necessários à vida. Aquele que busca a satisfação naquilo que tem e não a ansiedade por aquilo que não possui.
O jardineiro Epicuro nos ensinou que a felicidade genuína só pode ser atingida quando a alma está serena, e sua serenidade só pode ser atingida quando aprendemos a não trocar nossas noites de sono por causa do medo de perder aquilo que temos ou pelo desejo de possuir aquilo que ainda não chegamos a ter. Afinal, “a quem não basta pouco, nada basta”. CAPISTRANO, Pablo. Simples filosofia: a história da filosofia em 47 crônicas de jornal. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. PP. 72-74.
COM BASE NO TEXTO ACIMA, PROCURE RESPONDER CONFORME SE PEDE:
1. Quem foi Epicuro? Onde e quando nasceu?
2. Por que Epicuro tenha sido talvez o filósofo “mais difamado da história ocidental”?
3. Por que Epicuro passou a “cultivar” jardim?
4. Qual era o grande objetivo da escola de Epicuro?
5. Para Epicuro, o que o deseja representa? E como o shopping hoje usa a “ânsia do desejo”? Você concorda?
6. Diante de um quadro patológico de um ciclo sem fim do desejo, o que Epicuro propõe?
7. O que o jardineiro Epicuro nos ensinou?

A arte de envelhecer

A ARTE DE ENVELHECER
Antônio Roberto
Toda luta contra a realidade nos leva ao sofrimento. O que caracteriza a vida é a transitoriedade, a passagem. Ela é o essencial da existência e nela experimentamos a vitalidade humana, traduzida em fatos, sentimentos, ações e situações que se sucedem no tempo. Viver, portanto, é envelhecer. Não é à toa que no dia do nosso aniversário, dia sagrado do nosso nascimento, os amigos nos desejam “muitos anos de vida”.
Cumprir esse desejo maravilhoso dos que nos amam é envelhecer. Tenho percebido que há uma grande diferença entre envelhecer e ficar velho. Envelhecer é apenas seguir a trajetória natural do rio, fluindo no seu destino e no seu caminho. Nesse sentido, todas as pessoas estão envelhecendo: minhas netas, meus filhos, meus amigos, minha mulher, eu.
Ficar velho é resistir à passagem do tempo, é querer o impossível: ser eterno, desdenhar do transitório, querendo a permanência, a segurança, o definitivo. Ficar velho é lutar contra a realidade humana, cujo valor fundamental está no fato de que tudo passa e que tudo deve ser usufruído. Sempre gosto de repetir que a vida é para ser vivida e não para ser conservada. Não é o envelhecimento que dói ou é ruim. O que nos provoca sofrimento é a idéia que temos do envelhecimento, é a resistência a esse processo que, no fundo, é uma resistência à vida, à espontaneidade, à beleza do viver.
Outra consideração que poderá ajudar a todos nós é que envelhecer é fácil, não depende de nós e por isso todos envelhecemos, inclusive os animais. O difícil, e é uma escolha, é o crescimento. O verdadeiro prazer da existência vem do desenvolvimento do nosso potencial. Pessoas que fizeram um pacto com o crescimento e o aprendizado envelhecem felizes. Aqueles, no entanto, que optaram por observar passivamente a trajetória do tempo, cumprindo apenas o processo biológico, acabam se emaranhando nas teias da acomodação e do medo de morrer.
A chave da felicidade é utilizar a vida, desenvolvendo os próprios talentos, em vez de lamentar seu curso. A idade avançada não nos dá o direito de sermos rabugentos, de reclamar, queixar, acomodar ou justificar a pouca vontade de viver. O tempo é sempre nosso aliado, não nosso inimigo. Daí a minha insistência no fato de que “hoje é o primeiro dia de nossa vida”, nos convidando à celebração e ao recomeço.
Aumentar a nossa competência de viver o momento presente é outro antídoto contra a ignorância ao envelhecer. Com a passar dos anos, somos tentados a nos concentrarmos no passado, principalmente através da saudade e da culpa. Saudade das coisas boas e culpa pelas coisas ruins. Ou então no futuro, com medo da morte e das perdas. Um velho sábio é o que aprendeu, mais do que ninguém, que a melhor forma de viver é viver no presente, no agora, apenas aprendendo com o passado e olhando em paz o futuro. O velho estúpido é o que morreu ou está morrendo antes de morrer e a melhor forma disso é fixar-se no retrovisor ou no amanhã.
No desenvolvimento humano, é natural a perda da vitalidade física, dos movimentos, da saúde, da disposição para muitas coisas. O que não é natural é a perda da vitalidade emocional, espiritual, da esperança. Podemos resumir toda a questão do sofrimento ao envelhecer no processo da auto-estima. Como nossa sociedade é narcisista, baseada em imagens idealizadas, embarcamos no mito da beleza e da juventude, como se a imagem fosse mais importante que vida presente no nosso corpo.
Que diferença faz a idade, se meu coração está batendo, se estou respirando, se posso escutar os sons, apalpar o mundo e celebrar a vida? A felicidade está na forma de lidar com o mundo e não na perfeição. Auto-estima é nos amarmos sem nenhuma exigência ou condição. É nos amarmos tal qual somos, com nossas fraquezas, nossas dificuldades, nossas rugas.
Quanto mais envelhecemos, mais gratidão deve povoar nossos corações como ensinam as antigas tradições espirituais, pois que a idade avançada nos amostra apenas uma coisa: fomos os escolhidos de Deus para testemunharmos, durante longo tempo, a vida que nos foi dada. Vivê-la com graça e com sabedoria é o que temos de aprender. Envelhecer é fácil. O difícil é crescer, aprender, amar, apesar do tempo.” (Texto de Antônio Roberto. ESTADO DE MINAS. Domingo, 4 de julho de 2004. Caderno BEMVIVER, pág. 2).
A partir do que é apresentado pelo autor do texto acima, procure responder:
1.0 “Toda luta contra a realidade nos leva ao sofrimento...”, por quê?
2.0 Para o autor, “viver é envelhecer”. Você concorda com ele? Justifique sua resposta.
3.0 Para Roberto, há diferença entre envelhecer e ficar velho. Qual é? Você concorda? Justifique sua resposta.
4.0 Envelhecer é fácil. O que é difícil?
5.0 Qual é a chave da felicidade, segundo o autor?
6.0 Você tem vivido com competência a sua vida? Justifique sua resposta.
7.0 Para o autor, qual é a melhor forma de viver? Por quê?
8.0 “No desenvolvimento humano, é natural a perda da vitalidade física, dos movimentos, da saúde, da disposição para muitas coisas”. O que não é natural, segundo o autor?