Mostrando postagens com marcador Textos de Estudo: Sociologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Textos de Estudo: Sociologia. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de outubro de 2010

Sociologia: Professor Mário Márcio

COMO FUNCIONA A SOCIEDADE?

Pérsio Santos de Oliveira

Introdução:

     Segundo a definição de Thomas Bottomore, a sociedade é uma rede de relações entre pessoas, grupos sociais e instituições. Uma determinada categoria trabalhista em greve, por exemplo, nos transmite a ideia de um conjunto dinâmico formado pelas relações sociais, que interligam e envolvem as pessoas em uma permanente troca de contatos sociais. Isso nos leva também à noção de processo e de transformações ao longo do tempo. Os processos sociais podem contribuir tanto para a coesão da sociedade quanto para a eclosão de conflitos e enfrentamentos em seu interior. Comte e Durkheim enfatizavam a importância da coesão e do consenso na sociedade. Marx, ao contrário, priorizava o conflito em sua forma de luta de classes. Para ele, essa luta constituía o verdadeiro motor que move as engrenagens da História.


2 – As relações sociais
     Alguns estudiosos definem relação social como a forma assumida pela interação social em cada situação concreta. Assim, um professor tem um tipo de relação social com seus alunos, a relação pedagógica. Duas pessoas em uma operação de compra e venda estabelece outro tipo de relação social, a relação comercial. As relações sociais podem ser ainda políticas, religiosas, culturais, familiares, etc.
     Da mesma forma que a interação social, a relação social tem por base um comportamento recíproco entre duas ou mais pessoas. Nos termos de Max Weber, essa reciprocidade é dotada de um sentido comum às pessoas envolvidas. Segundo essa definição, as relações autoridade-obediência, por exemplo, são relações sociais, pois envolvem pessoas que exercem a autoridade e pessoas que obedecem, pois aceitam a autoridade reivindicada pelas primeiras, ou se submetem a ela, às vezes a contragosto.
     Em uma perspectiva diferente, Karl Marx considerava que as relações sociais eram decorrentes das relações de produção, ou seja, das relações desenvolvidas no processo produtivo, material, da sociedade. Um exemplo típico dessas relações seriam as que existem entre o dono de uma fábrica e seus empregados, ou ainda entre um dono de terra e seus arrendatários (pessoas que alugam um lote dessa terra e pagam uma quantia regular ao proprietário por esse arrendamento, ou aluguel).
     Para Karl Marx, contudo, as relações sociais não se restringem ao processo de produção. Este último constitui a base em que elas se apoiam, mas as relações sociais são mais amplas. Elas estão também na sala de aula, nos laços familiares, nos vínculos entre as instituições e entre estas e as pessoas, nos laços de amizade e assim por diante. Dessa forma, pode-se dizer, como Thomas Bottomore no início do texto, que “a sociedade é uma rede de relações entre indivíduos, entre grupos sociais e entre instituições”, ou seja, uma rede de relações sociais.

A RELAÇÃO SOCIAL EM MAX WEBER
     Por “relação” social deve-se entender uma conduta de várias pessoas – referida reciprocamente conforme seu conteúdo significativo, orientando-se por essa reciprocidade [conteúdo significativo é o sentido, ou significado, atribuído pelas pessoas à sua ação. Na relação social existe reciprocidade, ou seja, cada parte envolvida atribui um sentido, ou significado, à ação da outra].
     Um mínimo de reciprocidade nas ações é, portanto, uma característica conceitual da relação social. O conteúdo pode ser mais diverso: conflito, inimizade, amor sexual, amizade, piedade, troca no mercado, “ruptura” de um pacto, “concorrência” econômica, erótica ou de outro tipo, etc. O conceito, pois, nada diz sobre se entre os agentes existe “solidariedade” ou exatamente o contrário. [...]
    Não afirmamos de modo algum que num caso concreto os participantes da ação mutuamente referida ponham o mesmo sentido nessa ação, ou que adotem a atitude da outra parte. O que em um é amizade, amor, piedade, fidelidade contratual, pode encontra-se no outro com atitudes completamente diferentes. [Entretanto, mesmo nesses casos, existe reciprocidade em relação ao sentido atribuído à ação dos agentes], na medida em que o agente pressupõe uma determinada atitude de seu parceiro diante dele e nessa expectativa orienta sua conduta, o que poderá ter consequências para o desenrolar da ação e para a configuração da relação. OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia. São Paulo : Editora Ática, 2010. Pág. 57-60.
     Com base nos textos, procure responder:
1 – Segundo Thomas Bottomore, o que é sociedade?
2 – Que se deve entender por relação social?
3 – O que sustenta a relação social?
4 – Para Max Weber, o que é reciprocidade?
5 – Como Karl Marx considera as relações sociais?
6 – Explique o conceito de relação social tal como foi elaborado por Max Weber.
7 – Para Weber, as partes envolvidas numa relação social atribuem o mesmo significado a essa relação? Explique sua resposta.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Atividade Avaliada de Sociologia

PATERNIDADE
Décio Noronha
            A base da sociedade é a família. Porém...
            Pouca ou nenhuma atenção tem-se dado à família e aos papéis que cada membro nela exerce. A família é a unidade básica do desenvolvimento e da experiência, da realização ou do fracasso. Ela sofre modificações de tempos em tempos, sendo, em última instância, um produto da evolução. Por outro lado, permanece sempre um pouco da família velha na nova, atingindo uma espécie de imortalidade.
            Em cada mudança da estrutura social a família sofre, também, mudanças na sua gênese. Não trazemos dentro de nós somente uma família, mas várias famílias e, sendo assim, ela não possui só uma identidade, mas inúmeras. O papel de pai, o papel de mãe e o papel de filho só adquirem significado dentro de um determinado tempo e dentro de um processo extremamente dinâmico, que é a modificação da sociedade.
            É bom definirmos o que é um papel. De acordo com Moreno, “papel é a expressão social da conduta”. É uma unidade adaptativa da personalidade em ação.
            Todos nós sabemos, ou idealizamos o que é ser uma boa mãe, mas ficamos na dúvida do que vem a ser um bom pai. Uma boa mãe é aquela que vai ao encontro das necessidades vitais do recém-nato, seja protegendo-o, seja alimentando-o, ou cuidando dele em todos os seus primeiros momentos. E o pai? Talvez sua função seja muito mais a de proteger a mãe e o filho, prover o que eles necessitam enfrentar o perigo externo e lutar pela segurança deles. Talvez ele seja até o vínculo entre a família e o mundo externo. Esta é uma afirmação que pode se amoldar [se ajustar] a um determinado tipo de sociedade, especificamente aquela que denominamos de ocidental e cristã.
            A maternidade é um fato. A paternidade é apenas uma possibilidade. Pode-se ignorar a paternidade, mas nunca a maternidade. Dependemos do papel de mãe para se explicar o papel de pai. E uma primeira fase, mãe e filho são praticamente uma só pessoa. O pai é apenas uma figura subsidiária, completamente alijada de funções biológicas com relação à prole. Sobra-lhe apenas propiciar certo equilíbrio para que os primeiros relacionamentos interfamiliares se processem sem muitos traumas. O pai na nossa atual sociedade é, nestes primeiros relacionamentos, uma figura estranha, não por vontade expressa dele, mas por contingência de função que culturalmente lhe foi outorgada: a de provedor. O relacionamento mãe-filho exclui a figura paterna, pela própria natureza simbiótica deste relacionamento. A intromissão esporádica da figura paterna neste vínculo simbiótico dá uma nova direção a estes sentimentos.
            A criança, que possuía sentimentos ambivalentes em relação à figura materna, encontra um objeto novo para descarregar seu ódio, sua raiva, suas insatisfações para com o objeto primário. Estes sentimentos ambivalentes em relação à mãe, isto é, um mesmo objeto merecedor de amor e ódio externos depende do nível de frustrações que este objeto produz.
            A criança, que dentro de seu pensamento mágico, nega a existência de outros vínculos com o exterior, aos poucos vai percebendo que não está só no seu mundo. Que existe outra pessoa. Nada mais fácil que onipotentemente projetar seus medos e sua raiva para esta terceira pessoa, transformando a mãe em tudo que é “bom” e a outra pessoa – o pai – naquilo que é “mau”. A paternidade se processa de um modo nem sempre tranqüilo, mas carregado de sentimentos negativos. Verificamos que a interação da criança com seu pai, além de representar a mais tenra separação dela, criança, da sua mãe, simboliza a possibilidade de se relacionar com outras pessoas, fazendo-a perceber os vários elementos existentes na, até então, relação simbiótica.
            Tal situação pode gerar um sentimento de perda da mãe, que, na tentativa de reafirmar e defender seu papel, acaba por instigar uma dicotomia de funções, onde ela teria preponderantemente uma função biológica, e o pai, essencialmente social.
            Mas qual é a atuação do homem nesta sociedade que atualmente estamos vivendo? Como é que ele se sente dentro de uma sociedade que o valoriza pelo que possui em bens de consumo e não pelo que é como ser humano? Como é sentir-se apenas peça de uma engrenagem, com uma personalidade estereotipada e uma necessidade brutal de vencer, ser reconhecido, e, supervalorizar-se para adquirir o respeito da sociedade e de seus descendentes? Aqui caímos no mito do herói, do super-homem. Ao homem não cabe mais prover, mas super-prover, não mais proteger, mas super-proteger, não mais amar, mas super-amar. Podemos até entender, agora, a necessidade que ele tem de exigir o orgasmo de sua companheira na relação sexual. Nada mais é que o reflexo de sua insegurança e de seu medo do fracasso total. Daí o escape para a bebida, para o futebol, para o clube do bolinha, para aventuras sexuais e, até mesmo, para a família de origem, demonstrando claramente que deseja muito mais ser um filho  do que um pai, muito mais ser protegido do que proteger. Passa a ser o anti-herói, isto é, o protótipo do fracasso.
            É preciso que o homem compreenda que grandes modificações estão ocorrendo, que a força está sendo substituída pela técnica, pelo consenso, e que o conhecimento e o saber estão sendo distribuídos de modo razoavelmente igual para ambos os sexos. Estamos caminhando de modo lento, porém inexorável, para uma nova família. Felizmente, não mais se está construindo famílias com os moldes de antigamente. A própria dinâmica da sociedade, que transformou a família, que era extensiva, em uma família nuclear, está modificando papéis e funções, tanto do homem quanto da mulher. (Do livro Macho, masculino, homem: a sexualidade, o machismo e a crise de identidade do homem brasileiro. Diversos autores. Porto Alegre, L&PM, 1986. Págs. 34-38).
            COM BASE NO TEXTO ACIMA, E NA SUA EXPERIÊNCIA DE VIDA, RESPONDA CONFORME SE PEDE.
1 – A família é a base da sociedade, por quê? Justifique sua resposta com partes do texto.
2 – Explique: “não trazemos dentro de nós somente uma família, mas várias famílias...”
3 – Que se deve entender por “papel” social?
4 – O que é e para que “serve” um bom pai?
5 – A maternidade é um fato. A paternidade é apenas uma possibilidade, por quê?
6 – Culturalmente que função foi outorgada ao pai?
7 – No ocidente a mãe tem preponderantemente uma função biológica, e o pai, essencialmente social, por quê?
8 – Qual é a atuação do homem nesta sociedade que atualmente estamos vivendo?

terça-feira, 1 de junho de 2010

Sociologia

O PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO
O que nos é comum[1]
Nelson Dacio Tomazi
            Ao nascer, chega-se a um mundo que já está pronto, e essa relação com o “novo” é de total estranheza. A criança vai se relacionar e conviver com o mundo externo. Nesse momento ainda não se reconhece como pessoa, pois não domina os códigos sociais; é o “nenê”, um ser genérico.
            Com o tempo, a criança percebe que existem outras coisas a seu redor... Percebe que existem também pessoas – pai, mãe, irmãos, tios, avós – com os quais vai ter de se relacionar... À medida que cresce, vai descobrindo que há coisas que pode fazer e coisas que não pode fazer. Posteriormente saberá que isso é determinado pelas normas e costumes da sociedade à qual pertence.
            No processo de conhecimento do mundo, a criança observa que alguns dias são diferentes dos outros. Há dias em que os pais não saem para trabalhar e ficam em casa mais tempo... Nos outros dias da semana vai à escola, onde encontra crianças da mesma idade e também outros adultos.
            A criança vai entendendo que, além da casa e do bairro onde reside, existem outros lugares, uns parecidos com o local em que vive e outros bem diferentes; alguns próximos e outros distantes; alguns grandes e outros pequenos; alguns suntuosos e outros humildes ou miseráveis.
            Esse processo de conviver com a família e com os vizinhos, de freqüentar a escola, de ver televisão, de passear e de conhecer novos lugares, coisas e pessoas compõe um universo cheio de faces no qual a criança vai se socializando, isto é, vai aprendendo e interiorizando palavras, significados e idéias, enfim, os valores e o modo de vida da sociedade da qual faz parte.
            (...)
            Mesmo considerando todas as diferenças, há normalmente um processo de socialização formal, conduzido por instituições, como escola e Igreja, e um processo mais informal e abrangente, que acontece na família, na vizinhança, nos grupos de amigos e pela exposição aos meios de comunicação.
            O ponto de partida é a família, o espaço privado das relações de intimidade e afeto, em que geralmente, podemos encontrar alguma compreensão e refúgio, apesar dos conflitos. É o espaço onde aprendemos a obedecer a regras de convivência, a lidar com a diferença e a diversidade.
            Os espaços públicos de socialização são todos os outros lugares que freqüentamos em nosso cotidiano. Neles, as relações são diferentes, pois convivemos com pessoas que muitas vezes nem conhecemos. Nesses espaços públicos, não podemos fazer muitas das coisas que em casa são permitidas, e precisamos observar as normas e regras próprias em cada situação. Nos locais de culto religioso, por exemplo, devemos fazer silêncio; na escola, onde ocorre a educação formal, precisamos ser pontuais nos horários de entrada e saída, e assim por diante.
            Há, entretanto, agentes de socialização que estão presentes tanto nos espaços públicos como nos privados: são os meios de comunicação – o cinema, a televisão, o rádio, os jornais, as revistas, a internet e o telefone celular. Esses talvez sejam os meios de socialização mais eficazes e persuasivos. TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia para o ensino médio. 1ª Ed. São Paulo: Atual, 2007. Pp. 17-20
            COM BASE NO TEXTO ACIMA E NA SUA EXPERIÊNCIA DE VIDA, PROCURE RESPONDER:
1. Segundo o autor do texto, o que nos é comum?
2. Quando a criança ainda não se reconhece como pessoa, ela é, segundo o autor, “um ser genérico”, por quê?
3. Com o passar do tempo, o que a criança vai percebendo?
4. Quando vamos aprendendo e interiorizando valores e o modo de vida da sociedade da qual fazemos parte?
5. Existem diferenças no processo de socialização, por quê?
6. Nosso processo de socialização começa na família. O que devemos aprender com a nossa família e a nossa vizinhança?


[1] De bebês a adultos, em seu caminho de descoberta do mundo, todos os integrantes de uma sociedade passam pelo processo de socialização.

Sociologia.

Nossas escolhas, seus limites e repercussões
Nelson Dacio Tomazi[1]
            “Quando nascemos, já encontramos prontos valores, normas, costumes e práticas sociais. Também encontramos uma forma de produção da vida material que segue determinados parâmetros. Muitas vezes, não temos como interferir nem como fugir das regras já estabelecidas.
            A vida em sociedade é possível, portanto, porque as pessoas falam a mesma língua, são julgadas por determinadas leis comuns, usam a mesma moeda, além de ter uma história e alguns hábitos comuns, o que lhes dá um sentimento de pertencer a determinado grupo [social].
            O fundamental é entender que o individual – o que é de cada um – e o comum – o que é compartilhado por todos – não estão separados; formam uma relação que se constitui conforme reagimos às situações que enfrentamos no dia-a-dia. (...) algumas [pessoas] podem reagir e lutar, ao passo que outras se acomodam às circunstâncias. Isso tudo é fruto das relações sociais. E é justamente nesse processo que construímos a sociedade em que vivemos. Se as circunstâncias formam os indivíduos, estes também criam as circunstâncias.
            Existem vários níveis de interdependência entre a vida privada – a biografia de cada pessoa – e o contexto social mais amplo. A vida de um indivíduo está de alguma maneira, condicionada por decisões e escolhas que ocorrem fora de seu alcance.
            (...) a história de uma sociedade é feita por todos os que nela vivem..., conforme seus interesses e seu poder de influir nas situações existentes.
            De acordo com Norbert Elias, a sociedade não é um baile à fantasia, em que cada um pode mudar a máscara ou a fantasia a qualquer momento. Desde o nascimento, estamos presos às relações que foram estabelecidas antes de nós e que existem e se estruturam durante nossa vida. [...] Daí, tomar uma decisão é algo individual e social ao mesmo tempo, sendo impossível separar esses planos.
           
Vimos até agora como o indivíduo atua na sociedade e como a sociedade atua na vida do indivíduo. O processo pelo qual os indivíduos formam a sociedade e são formados por ela é chamado de socialização. A imagem que melhor descreve esse processo é a de uma rede tecida por relações sociais que vão se entrelaçando e compondo diversas outras relações até formar toda a sociedade.
Cada indivíduo, ao fazer parte de uma sociedade, insere-se em múltiplos grupos e instituições que se entrecruzam, como a família, a escola e a Igreja. E, assim, o fio da meada parece interminável porque forma uma complexa rede de relações que permeia o cotidiano. Ainda que cada sujeito tenha sua individualidade, esta se constrói no contexto das relações  sociais com os diferentes grupos e instituições dos quais ele participa, tendo por isso experiências semelhantes ou diferentes das de outras pessoas. TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia para o ensino médio. 1ª Ed. São Paulo: Atual, 2007. Págs. 13-17

COM BASE NO TEXTO ACIMA, RESPONDA CONFORME SE PEDE:
1.0  Por que a vida em sociedade é possível?
2.0  “Se as circunstâncias formam os indivíduos, estes também criam as circunstâncias”, por quê?
3.0  De acordo com Norbert Elias, a sociedade não é um baile à fantasia, em que cada um pode mudar a máscara ou a fantasia a qualquer momento, por quê?
4.0  Que se deve entender por socialização?
5.0  Você pensa que as mudanças na sociedade podem influir no comportamento das pessoas no espaço da família, da escola ou de outros grupos de convívio? De que forma?
6.0  A internet nos aproxima de muitas pessoas que com freqüência nem conhecemos, mas parece que nos distancia de quem está perto de nós. O que você pensa disso?


[1] Membro da Comissão de Ensino da Sociedade Brasileira de Sociologia. Consultor e membro da equipe de redação das Orientações Curriculares Nacionais – Sociologia.

Sociologia


AS RECEITAS

Rubem Alves

         “Quando eu era menino, na escola, as professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Elas me ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será um grande pintor por ser dono de uma loja de tintas. Mas o que faz um quadro não é a tinta: são as idéias que moram na cabeça do pintor. São as idéias dançantes na cabeça que fazem as tintas dançarem sobre a tela.
         Por isso, sendo um país tão rico, somos um povo tão pobre. Somos pobres em idéias. Não sabemos pensar. Nisso nos parecemos com os dinossauros, que tinham excesso de massa muscular e cérebros de galinha. Hoje, nas relações de troca entre os países, o bem mais caro, o bem mais cuidadosamente guardado, o bem que não se vende, são as idéias. É com as idéias que o mundo é feito. Prova disso são os tigres asiáticos, Japão Coréia, Formosa que, pobres de recursos naturais, enriqueceram por terem-se especializado na arte de pensar.
         Minha filha me fez uma pergunta: “O que é pensar?” Disse-me que esta era uma pergunta que o professor de filosofia havia proposto à classe. Pelo que lhe dou os parabéns. Primeiro por ter ido diretamente à questão essencial. Segundo, por ter tido a sabedoria de fazer a pergunta, sem dar a resposta. Porque, se tivesse dado a resposta, teria com ela cortado as asas do pensamento. O pensamento é como a águia que só alça vôo nos espaços vazios do desconhecido. Pensar é voar sobre o que não se sabe. Não existe nada mais fatal para o pensamento que o ensino das respostas certas. Para isso existem as escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas. As respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas somente as perguntas nos permitem entrar pelo mar desconhecido.
         E, no entanto, não podemos viver sem as respostas. As asas, para o impulso inicial do vôo, dependem de pés apoiados na terra firme. Os pássaros, antes de saberem voar, aprendem a se apoiar sobre os seus pés. Também as crianças, antes de aprenderem a voar, têm de aprender a caminhar sobre a terra firme.
         Terra firme: milhares de perguntas para as quais as gerações passadas já descobriram as respostas. O primeiro momento da educação é a transmissão desse saber.
         Nas palavras de Roland Barthes: “Há um momento em que se ensina o que se sabe...” E o curioso é que esse aprendizado é justamente para nos poupar da necessidade de pensar.
         As gerações mais velhas ensinam às mais novas as receitas que funcionam. Sei amarrar os meus sapatos automaticamente, sei dar o nó na minha gravata automaticamente: as mãos fazem seu trabalho com destreza enquanto as idéias andam por outros lugares.
         Aquilo que um dia não sabia me foi ensinado; eu aprendi com o corpo e esqueci com a cabeça. E a condição para que minhas mãos saibam bem é que a cabeça não pense sobre o que elas estão fazendo. Um pianista que, na hora da execução, pensa sobre os caminhos que seus dedos deverão seguir tropeçará fatalmente. Há a estória de uma centopéia que andava feliz pelo jardim, quando foi interpelada por um grilo: “Dona Centopéia, sempre tive curiosidade sobre uma coisa: quando a senhora anda, qual, dentre as suas cem pernas, é aquela que a senhora movimenta primeiro? “Curioso”, ela respondeu. “Sempre andei, mas nunca me propus esta questão. Da próxima vez, prestarei atenção” Termina a estória dizendo que a centopéia nunca mais conseguiu andar.
         Todo mundo fala, e fala bem.
         Ninguém sabe como a linguagem foi ensinada e nem como ela foi aprendida. A despeito disso, o ensino foi tão eficiente que não preciso pensar para falar. Ao falar não sei se estou usando um substantivo, um verbo ou um adjetivo, e nem me lembro das regras da gramática. Quem, para falar, tem de se lembrar dessas coisas não sabe falar. Há um nível de aprendizado em que o pensamento é um estorvo. Só se sabe bem com o corpo aquilo que a cabeça esqueceu. E assim escrevemos, lemos, andamos de bicicleta, nadamos, pregamos pregos, guiamos carros: sem saber com a cabeça, porque o corpo sabe melhor. É um conhecimento que se tornou parte inconsciente de mim mesmo. E isso me poupa do trabalho de pensar o já sabido. Ensinar, aqui, é inconscientizar.
         O sabido é o não-pensado, que fica guardado, pronto para ser usado como receita, na memória desse computador que se chama cérebro. Basta apertar a tecla adequada para que a receita apareça no vídeo da consciência. (...)
         Não é coisa que eu tenha inventado. Foi-me ensinado. Não precisei pensar. Gostei. Foi para a memória. Esta é a regra fundamental desse computador que vive no corpo humano: só vai para a memória aquilo que é objeto do desejo. A tarefa primordial do professor: seduzir o aluno para que ele deseje e, desejando, aprenda.” (ALVES, Rubem. A alegria de ensinar. Campinas, SP: Papirus, 2000. Pp. 77-81)
         COM BASE NO TEXTO ACIMA, RESPONDA:
1.0           Segundo o autor, para que existem as escolas?
2.0           Quando Rubem Alves faz referências às “receitas” ela fala em “terra firme”, o que isso significa?
3.0           “Aquilo que um dia eu não sabia me foi ensinado; eu aprendi com o corpo e esqueci com a cabeça”, por quê?
4.0           Segundo o autor, qual é a tarefa primordial do professor?
5.0           Para Rubem Alves, quando um aluno aprende?

sábado, 29 de maio de 2010

Sociologia.

A FESTA: OS RITOS DE PASSAGEM
Carlos Rodrigues Brandão
                “Basta olharmos para nossa própria vida, e com bons olhos veremos como ela é uma seqüência de situações únicas (o nascimento e a morte), raras (o casamento ou o nascimento de nossos filhos) ou repetidas (a série de aniversários) com que as pessoas da família, da parentela, da vizinhança ou dos círculos de trabalho ou de amizade nos festejam ou nos obrigam a festejar.
                Olhando nossa própria cultura vale a pena observar uma diferença curiosa e importante. Algumas sociedades comemoram com mais ênfase certos acontecimentos e situações, enquanto outras os deixam em segundo plano e dão mais importância a outros. Nas cidades médias e grandes as festas cívicas, históricas e profanas conquistam um lugar de crescente importância, enquanto nas pequenas cidades e nos povoados do interior elas ocupam um segundo plano, e os festejos locais e religiosos povoam quase todo o calendário. Aqui o Primeiro de Janeiro, o Carnaval, o Dia do Trabalho, o Vinte e Um de Abril e o Sete de Setembro; lá, o Dia de Santos Reis, a festa do padroeiro, a Semana Santa, as festas juninas. A família urbana e a cidade multiplicam na casa os ritos de passagem: os aniversários, a primeira comunhão, o crisma, os 15 anos, o ingresso de um filho na universidade e mais adiante a formatura, a casa nova, a nova praça, a vitória do Flamengo, a de Tancredo Neves. Entre homens do campo, as principais cerimônias são as do batizado, do matrimônio e aquelas que envolvem os ritos da morte da pessoa. É como se no mundo da cidade a festa oscilasse entre um máximo de sentido do universal, como no Natal e no Ano Novo, e, em contrapartida, um máximo de afirmação simbólica do valor da individualidade, como no aniversário. Enquanto no campo, valem mais as cerimônias de reconhecimento de um nós local, como nas festas de santos padroeiros, e de associação da biografia individual ao ritmo e ao sentido da vida comunitária, como no batizado, no casamento e no velório.
                E, mesmo a partir do que acontece com a própria pessoa individual, quando ela se festeja ou é festejada, que emerge clara a idéia tão antiga e atual de que a festa é uma fala, uma memória e uma mensagem. O lugar simbólico onde [formalmente] separam-se o que deve ser esquecido e, por isso mesmo, em silêncio não-festejado, e aquilo que deve ser resgatado da coisa ao símbolo, posto em evidência de tempos em tempos, comemorado, celebrado. Aqui e ali, por causa dos mais diversos motivos, eis que a cultura de que somos ator-parte interrompe a seqüência do correr dos dias da vida cotidiana e demarca os momentos de festejar. Instantes dados à casa ou ao quintal, à igreja, à praça ou à rua em que cada um, alguns ou vários de nós somos, singular ou coletivamente, chamados à cena, postos à cabeceira da mesa e diante de um bolo com velas, presenteados, honrados com falas ou lágrimas. Hei-nos por um instante convocados à evidência, para sermos lembrados ou para que algo ou alguém – outra pessoa, um bicho, um deus – seja lembrado através de nós, para que então alguma coisa constituída como sentido da vida e ordem do mundo seja dita ritualmente através de nós, que, festejados, somos durante a brevidade de um momento especial enunciados com mais ênfase: somos símbolo.
                A ênfase daquilo que a sociedade festeja em nós prefere recair sobre as situações em que ela atesta que alguém transitou de uma posição a outra e, assim, migrou de um de seus espaços de vida e trabalho a outro: de estudante a profissional, de pagão a cristão, de menina a moça “pronta para casar”, de adolescente a guerreiro da tribo, de vivo a morto, de morto a mito. A festa, quando soleniza a passagem e comemora a memória, demarca. A vida passa, passamos. Tudo muda, e tudo é o mesmo: mudamos, somos agora o que não éramos ainda, mas somos os mesmos, diversos: ao mesmo tempo um outro e eu. Envelheço, “vejo em mim o tempo do mundo passar”, e isso pesa. Mas eis que os símbolos dos sistemas de festas de que sou parte, ou alvo, aos poucos me ensinam a substituir a pura energia do desejo do prazer ou o temor de seu fim em mim pela serena vontade de conviver em paz comigo mesmo, entre todos, e possuir a compreensão de tudo. Eis que a festa restabelece laços. Sou eu que se festeja, porque eu sou daqueles ou daquilo que me faz a festa. Estou sólida e afetivamente ligado a uma comunidade de eus-outros que cruzam comigo a viagem do peso da vida e da realíssima fantasia exata das festas que nos fazemos, para não esquecer isto. Juntos, diferencialmente irmanados, pedimos à festa a evidência de que tudo isso, que é a vida, e a vida impositivamente social, é suportável e até bom, porque, sendo irrecusável, pode ser até previsível se revivido com afeto e com sentido. Vista em sua desvestida realidade, a celebração religiosa ou profana, solenidade ou mascarada, não ilude nem oculta. Não disfarça. Ao contrário, ao jogar com a metáfora e romper com o excesso de significante, a ordem social da vida e a ordenação lógica do significado, a festa exagera o real. Se eu disse antes que ela faz ser suportável o inevitável e sua consciência antecipada, é porque ela comemora a possibilidade disto e de tudo o mais ser compreensível e compreendido. Assimilado à lógica da cultura não como sua ilusão – mágicos não fazem festas – mas como a necessidade de transpor umas para outras esferas de trocas, que nem por serem mais motivadamente simbólicas deixam de ser tão socialmente rurais.
                Ele toma a seu cargo os mesmos sujeitos e objetos, quase a mesma estrutura de relações do correr da vida, e os transfigura. A festa se apossa da rotina e não rompe mas excede sua lógica, e é nisso que ela força as pessoas ao breve ofício ritual da transgressão. No Carnaval, que os atores da ordem saiam de si mesmos e produzam outros gestos. Que suspeitem da conduta adequada ao tempo do trabalho e se veja, no espelho invertido do que é socialmente esperado, logo do que simbolicamente limita muito o ser do homem. Os homens se vestem de mulheres, as mulheres de fadas, os pobres de príncipes, os ricos de índios, e os índios de deuses. Em algumas regiões Sudeste da África, mas também na Roma antiga ou no Rio de Janeiro de hoje, as condutas se ultrapassam, e um modo mais denso e enigmático do real emerge... Senhores e servos da metáfora e da memória, conhecemos, criamos e queremos muito mais dimensões da vida e das experiências do ser e do mundo a que a vida sem o ritual nos obriga... Em várias celebrações, os mesmos comportamentos e as mesmas relações entre as pessoas são exagerados: o que se come sempre se come agora, muito mais e em lugares cerimoniais, fora de casa; o que se bebe, bebe-se muito mais e em nome de alguma coisa que mereça o gasto e a ressaca; o que se fala, canta e dança é enunciado por mais tempo e com bastante mais prazer ou fervor...” (BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A cultura na Rua. Campinas, SP : Papirus, 2001. 2a edição. Pág. 7-10.)
                COM BASE NO TEXTO ACIMA, RESPONDA:
1.0     Segundo o autor, o que é a nossa vida?
2.0     Há diferença entre as culturas das médias e grandes cidades e entre as das pequenas cidades e  povoados. Que diferença é essa?
3.0     Para o autor, o que é festa?
4.0     Para você, quais são as principais festas do ano? Por quê?
5.0     Segundo o autor, a “festa restabelece laços”, por quê?
6.0     Explique por que a “festa exagera o real”.
7.0     O que a comemoração de seu aniversário representa para você a sua comunidade? Você gosta de ser lembrado em seu aniversário? Por quê?